Brasil Editorial
A Amazônia queima, Manaus respira fumaça e os presidenciáveis parecem ter assuntos mais importantes
Enquanto a população enfrenta os efeitos das queimadas, a disputa pelo poder continua ocupando o centro do palco. A floresta arde, o ar se torna um problema de saúde pública e fica a pergunta: onde estão os candidatos que dizem ter soluções para o Brasil?
12/10/2026 19h33
Por: Paulo Camargo

Existe uma contradição difícil de ignorar na política brasileira. A Amazônia é apresentada como patrimônio nacional, símbolo da soberania brasileira e peça fundamental no equilíbrio ambiental do planeta. Políticos de diferentes espectros ideológicos recorrem à sua importância quando precisam defender suas posições, responder a críticas internacionais ou construir discursos sobre o futuro do país.

Mas, quando o fogo volta a avançar, a fumaça compromete a qualidade do ar e a população precisa conviver com as consequências, a pergunta que deveria estar no centro do debate presidencial parece perder espaço: quem, de fato, está disposto a assumir a responsabilidade de proteger a Amazônia para além das palavras?

Manaus não pode ser tratada como uma nota de rodapé na agenda nacional. O Amazonas não é um território distante que só merece atenção quando uma imagem impressionante viraliza nas redes sociais. E a floresta não pode ser reduzida a um cenário conveniente para discursos políticos, fotografias oficiais e promessas feitas diante de câmeras.

O problema é real. As consequências são concretas. E a cobrança precisa ser proporcional à dimensão da crise.

Muito discurso, pouca cobrança e uma floresta que não pode esperar

A disputa presidencial brasileira costuma transformar praticamente qualquer assunto em uma batalha entre grupos políticos. Economia, segurança pública, impostos, corrupção e costumes viram munição eleitoral. Cada declaração é calculada, cada adversário é atacado e cada oportunidade de conquistar votos é disputada como se fosse uma questão de sobrevivência.

Mas onde entra a proteção da Amazônia nessa disputa?

Onde estão os planos detalhados para prevenir incêndios, ampliar a capacidade de resposta, estruturar as equipes de combate, fortalecer a fiscalização e responsabilizar quem provoca queimadas criminosas? Onde estão as metas públicas, os prazos, os indicadores e os compromissos que permitam ao eleitor verificar, depois da eleição, se as promessas foram cumpridas?

Não basta dizer que a Amazônia é importante. Isso qualquer político consegue dizer em poucos segundos diante de um microfone.

O que diferencia um compromisso sério de uma peça de propaganda é a capacidade de apresentar soluções, explicar como serão financiadas, indicar quem será responsável pela execução e aceitar que a sociedade cobre resultados.

Defender a floresta no discurso é fácil. Difícil é construir uma política permanente de prevenção, fiscalização e combate ao fogo.

E é justamente nessa diferença que a discussão precisa avançar.

A fumaça não tem partido. A responsabilidade também não deveria ter.

Quando uma crise ambiental se instala, a primeira reação de parte da política é procurar um culpado que favoreça a própria narrativa. Se o governo é de um adversário, a tragédia vira prova de incompetência. Se o governo é aliado, surgem justificativas, explicações e tentativas de diminuir a dimensão do problema.

Esse comportamento não resolve incêndio algum.

A Amazônia não pode ser administrada conforme a conveniência de um partido, e a proteção ambiental não deveria mudar de prioridade a cada troca de governo. Prevenção exige continuidade. Fiscalização exige estrutura. Combate ao fogo exige planejamento, pessoal treinado, equipamentos e recursos disponíveis antes que a situação saia do controle.

É legítimo investigar a responsabilidade de cada administração, avaliar resultados e cobrar explicações. O que não faz sentido é transformar toda crise em uma disputa de torcida, na qual um lado denuncia e o outro se defende, enquanto a população permanece esperando medidas concretas.

O Brasil já deveria ter aprendido que a discussão sobre queimadas não pode começar apenas quando a fumaça toma conta das cidades. Quando a emergência chega, parte do trabalho preventivo já deveria estar feita.

Se a cada período crítico o país precisa voltar às mesmas perguntas, discutir as mesmas falhas e ouvir as mesmas promessas, então existe um problema que ultrapassa a disputa entre governos: falta transformar a prevenção em prioridade permanente de Estado.

E os presidenciáveis? A cobrança precisa chegar até eles.

É nesse cenário que a ausência do tema no debate eleitoral se torna politicamente incômoda.

Se os candidatos pretendem governar o Brasil, precisam explicar qual é a estratégia que defendem para enfrentar as queimadas, proteger a floresta e reduzir os impactos sobre a população. Não é uma exigência ideológica. É uma obrigação mínima de quem disputa o comando de um país que abriga a maior parte da Amazônia.

O eleitor não deveria precisar escolher entre candidatos que discutem intensamente o poder e candidatos que apresentam soluções ambientais. A expectativa é que quem pretende governar consiga tratar das duas coisas, porque administrar um país exige enfrentar problemas reais, inclusive aqueles que não produzem dividendos eleitorais imediatos.

Se há espaço para longas discussões sobre adversários, alianças, pesquisas e estratégias de campanha, também precisa haver espaço para explicar o que será feito diante de uma crise ambiental recorrente.

E não basta publicar uma frase genérica sobre preservação. Não basta dizer que é preciso proteger a floresta. Não basta culpar exclusivamente o adversário ou atribuir tudo a fenômenos naturais sem apresentar dados e medidas concretas.

O país precisa conhecer as propostas. Precisa saber quais recursos serão destinados à prevenção, como a fiscalização será organizada, como as equipes de combate serão fortalecidas e quais mecanismos garantirão transparência na aplicação do dinheiro público.

Quem quer o voto dos brasileiros também precisa aceitar perguntas sobre aquilo que não está rendendo aplausos nos palanques.

A cobrança, portanto, deve ser dirigida a todos os presidenciáveis, sem exceção e sem privilégios partidários. Mas é preciso fazer isso com responsabilidade: afirmar que nenhum deles se manifestou exige verificar individualmente suas declarações, entrevistas, propostas e publicações recentes. A crítica política ganha força quando está amparada em fatos, não quando depende de uma generalização fácil de contestar.

A Amazônia não pode ser importante apenas para a fotografia

Existe também uma dimensão simbólica nessa discussão.

A floresta amazônica costuma ocupar lugar de destaque em discursos sobre identidade nacional, riqueza natural e protagonismo internacional. Sua preservação é invocada como demonstração de responsabilidade ambiental e como argumento para defender os interesses brasileiros diante do mundo.

Entretanto, não há coerência em reivindicar a importância estratégica da Amazônia e tratar os problemas enfrentados por quem vive na região como uma questão periférica.

Manaus é uma capital brasileira. A população do Amazonas não é figurante de uma discussão internacional sobre o meio ambiente. São pessoas que precisam de condições adequadas para viver, trabalhar, estudar e respirar.

A qualidade do ar não pode depender da repercussão de imagens nas redes sociais. O atendimento à população afetada não pode esperar que o assunto alcance as principais manchetes. E o combate às queimadas não pode funcionar apenas como resposta emergencial, acionada quando a situação já se tornou impossível de ignorar.

A floresta não precisa apenas de defensores ocasionais. Precisa de políticas públicas que funcionem quando não há câmeras acompanhando, quando o assunto não está entre os mais comentados e quando a campanha eleitoral está voltada para outras prioridades.

É justamente nesses momentos que se mede a seriedade de um compromisso público.

Não é uma disputa entre desenvolvimento e preservação

Outra saída recorrente no debate brasileiro é apresentar a proteção ambiental como se fosse necessariamente inimiga do desenvolvimento econômico. Essa simplificação empobrece a discussão e oferece aos políticos uma desculpa conveniente para não enfrentar o problema com a profundidade necessária.

O Brasil precisa produzir, gerar empregos, garantir energia, desenvolver sua infraestrutura e melhorar as condições de vida da população. Mas também precisa proteger seus recursos naturais, combater atividades ilegais e evitar que a destruição ambiental produza prejuízos humanos e econômicos.

Esses objetivos exigem planejamento e capacidade de execução, não slogans.

Uma política ambiental séria precisa distinguir incêndios acidentais, queimadas autorizadas dentro das regras aplicáveis e incêndios criminosos. Precisa investigar causas, respeitar as diferenças entre as regiões e responsabilizar os envolvidos quando houver infração. Precisa, ainda, considerar as condições climáticas, a vulnerabilidade dos territórios e a capacidade de resposta dos órgãos públicos.

Não se trata de apontar culpados antecipadamente. Trata-se de exigir que o Estado tenha condições de identificar responsabilidades e agir com eficiência.

O eleitor não precisa de mais uma guerra ideológica sobre a Amazônia. Precisa saber o que cada candidato pretende fazer com ela.

O silêncio também precisa ser colocado à prova

Em uma eleição presidencial, aquilo que os candidatos escolhem discutir revela prioridades. Mas o que deixam de discutir também merece atenção.

Se a crise das queimadas não recebe a atenção proporcional à sua gravidade, cabe à imprensa questionar, às instituições apresentar informações e à sociedade cobrar posicionamentos. Não é necessário esperar que um candidato transforme o tema em bandeira para que ele passe a merecer debate.

O jornalismo não deve funcionar como assessoria de campanha, reproduzindo apenas os assuntos que os candidatos decidem colocar em circulação. Seu papel também é perguntar sobre os problemas que permanecem fora do discurso eleitoral, especialmente quando envolvem interesse público, saúde, meio ambiente e recursos públicos.

Por isso, a cobrança não deve se limitar a perguntar quem publicou uma nota ou gravou um vídeo sobre o assunto. A pergunta mais importante é outra: quem apresentou uma proposta verificável, com medidas, orçamento, metas e mecanismos de prestação de contas?

Porque mencionar a Amazônia não é o mesmo que protegê-la. Condenar queimadas não é o mesmo que preveni-las. E prometer fiscalização não significa que ela será executada.

A diferença entre discurso e resultado precisa ser exposta antes da eleição, não apenas depois que os eleitos assumirem seus cargos.

O Brasil precisa de respostas antes da próxima temporada de incêndios

Uma política eficiente não pode depender exclusivamente da reação diante de uma emergência. Ela precisa antecipar riscos, preparar equipes, garantir recursos, integrar órgãos públicos e estabelecer responsabilidades claras.

Também precisa de transparência para que a população saiba quanto foi investido, quais ações foram realizadas, quantas equipes estão disponíveis e quais resultados foram alcançados.

É isso que deveria ser exigido de quem pretende ocupar a Presidência da República. Não uma promessa impossível de eliminar todos os incêndios, mas um plano consistente para reduzir os riscos, responder com rapidez, investigar irregularidades e proteger as pessoas atingidas.

O país não pode continuar tratando a repetição de crises como se fosse uma surpresa inevitável. Eventos climáticos podem agravar situações, mas isso torna o planejamento ainda mais necessário, não menos.

Se o problema é recorrente, a prevenção precisa ser permanente. Se os riscos são conhecidos, a preparação deve começar antes da emergência. E, se os recursos públicos são empregados no enfrentamento da crise, os resultados precisam ser apresentados à sociedade.

Essa é a diferença entre administrar um problema e apenas reagir a ele.

A pergunta que fica para quem quer governar o Brasil

A Amazônia não pertence a um partido, a um governo ou a um grupo de candidatos. É patrimônio brasileiro, território de milhões de pessoas e uma região de importância ambiental que exige responsabilidade contínua.

Manaus não deveria precisar voltar ao centro das atenções apenas quando a fumaça se torna visível. A população do Amazonas não deveria depender da repercussão de uma tragédia para ser ouvida. E a proteção da floresta não deveria ocupar espaço no discurso político somente quando convém à estratégia eleitoral.

Se os presidenciáveis querem apresentar projetos para o futuro do país, precisam incluir a Amazônia nessa discussão com a seriedade que ela exige. E, se já apresentaram propostas, precisam ter suas medidas confrontadas com os problemas reais, os recursos disponíveis e os resultados que podem ser cobrados.

O que não serve é o silêncio conveniente. Tampouco servem as manifestações genéricas, os ataques partidários e as promessas sem mecanismos de execução.

Quando a floresta queima, não basta perguntar quem será responsabilizado depois. É preciso perguntar quem estava preparado para impedir que a situação chegasse a esse ponto.

A política brasileira já tem discursos suficientes. O que falta, em muitas áreas, é demonstrar capacidade de transformar promessas em resultados.

E a Amazônia não pode ser mais uma vítima dessa distância entre o que se diz e o que se faz.

A floresta não vota. A fumaça não faz campanha. Mas os brasileiros que enfrentam as consequências têm todo o direito de cobrar respostas de quem pede seu voto.